29 outubro, 2005

Feira Ecológica da lagoa

Ficamos felizes em perceber o quanto as pessoas de todas as idades estão resgatando o hábito de ir a feira e deixando de lado o supermercado, e ainda mais do que isso, valorizando e indo atrás dos produtos orgânicos, fazendo amizade com os produtores, chegando na barraca com seus filhos, netos e sabendo os nomes uns dos outros. Como um encontro de amigos.
A feira da lagoa (em Floripa), acontece todos os sábados das 07:00 às 13:00 h , na pracinha perto da ponte. Tem um espaço para as barracas bem na frente e no meio da praça ficam vários brinquedos onde dá para deixar as crianças e fazer a feira vendo elas brincarem.

Reencontramos o Glaico e a Rosa dePaulo Lopes, a barraca deles ficava lotada o tempo todo, as cores dos alimentos saltavam aos olhos de quem chegava.
Reencontramos tambem Vladimir, apicultor da região que também se integrou ao projeto e o nosso amado amigo sociólogo cósmico intergaláctico, Didac Jay Katar e seus haribols encantados, sempre na busca de difundir por todos os cantos do planeta a beleza da economia solidária.

Conhecemos o trabalho da Silvia , uma artesã que recicla vários tipos de materiais e as transforma em arte útil e de bom gosto. São pulseiras, colares de todas as formas feitos de papeís de revista, um resgate de uma tecnica italiana chamada papietagem, e ainda bolsas , tiaras e tapetes feitos de fita k-7, fitas de imprimir cartões magnéticos, sacolas plásticas, e tudo muito colorido com enfeites de caquinhos de cd´s, anéis de latinha e muita criatividade. Coisas que deveriam ser ensinadas nas escolas, transformando e reduzindo o lixo urbano e planetário.

Vimos também o trabalho do Flávio que transforma cabaças em tudo que a imaginação permitir, além de tarabalhar com ceramica, fazendo de bules à esculturas.
Assim como a feira da Redenção em Porto Alegre, e a feira do Passeio público em Curitiba que acontecem aos sábados, a feira da lagoa é uma oportunidade dos consumidores entrarem em contato com produtores que se preocupam com a qualidade de vida de todos nós e cultivam com amor alimentos sem venenos e fazer a cada dia com que este trabalho, que é dos mais nobres, o de cultivar a terra, receba o seu devido valor.

26 outubro, 2005

O Dom Natural de Paulo Lopes

A visita à propriedade de Glaico e Rosa em Paulo Lopes (ao sul de Garopaba) era bastante esperada. Várias sincronicidades vinham acompanhando o nome dos dois, desde nossa chegada a Porto, quando soubemos que o casal de agricultores havia ficado na casa de nossa amiga Ana Adams durante o último FSM, além das recomendações de Itamar e Marcos Marques em Criciúma, da referência da Feira Orgânica da Lagoa (da Conceição em Floripa) feita pela Bel (OIKOS) e do nosso encontro no Seminário de Agroecologia, quando conseguimos trocar meia dúzia de palavras enquanto ele desmontava a tenda do Dom Natural (nome de seu sítio e de sua agroindústria) e carregava as caixas no caminhão. A decepção ameaçou chegar quando percebemos que o tempo estava correndo e nossa agenda de visitas e atividades impossibilitava o encontro... no entanto, eis que "Jojô" surge com a novidade quando estávamos a ponto de desistir: ele havia sido convidado a oferecer uma oficina de aquecimento solar de água para a equipe da EPAGRI da região de Paulo Lopes no projeto Microbacias 2, o mesmo em que havíamos participado para a construção da cisterna em Praia Grande há cerca de um mês antes.

Paulo Lopes faz parte de mais uma região ao sul de SC assolada pelas lavouras de arroz irrigado e monocultivadas à base de muito veneno e fertilizantes químicos - resultado: desigualdade social, degradação ambiental, piora na qualidade de vida, alimentos e pessoas enfraquecidas. o Dom Natural é assim praticamente um oásis de diversidade em meio à monocultura, um espaço de respeito à vida em todas suas formas, onde o clima de tranquilidade e de abundância de alimentos produzidos na horta aconchega o visitante.

Horta do Dom Natural


Assim como outros agricultores que tivemos a oportunidade de conhecer, Glaico e Rosa vem de uma tradição familar na cultura agrícola, e também como tantos outros, fizeram a difícil transição dos monocultivos à agricultura orgânica, e vão devagar e coerentemente incorporando elementos da agroecologia e do design em permacultura ao trabalho no sítio. O resultado não poderia ser outro: alimentos e pessoas saudáveis e felizes.

Já quanto à oficina, a surpresa ficou por conta do envolvimento de muitos dos técnicos e engenheiros da EPAGRI, que estavam ali não para serem treinados na técnica de montagem de aquecedores solares com garrafas PET, mas sim para enxergarem as possibilidades e aprenderem uma entre tantas técnicas disponíveis.

Pessoal da EPAGRI da região de Paulo Lopes durante oficina de aquecimento solar de água

A vantagem clara da técnica além do baixo custo, simplicidade e praticidade é a disponibilidade de materiais. Fazendo uso de garrafas PET que seriam descartadas ou no máximo recicladas, quando utilizadas diretamente num aquecedor dispensam a energia gasta para reprocessar o material. Além disso são utilizadas apenas mangueiras de polietileno ("mangueiras pretas"), conectores de mangueira e braçadeiras metálicas.

Montagem do conjunto de barras de mangueira preta e garrafas PET

Para quem duvida que a água esquenta basta saber que o pessoal do RS e SC usa essa água para preparar o chimarrão... ainda tá duvidando??? Por fim, aproveitando a disponibilidade de 2 tonéis de aço, foi feito um reservatório para armazenar a água disponível nos dias mais frios, e que será canalizada para a cozinha da agroindústria do sítio. Água quente disponível por boa parte do ano sem gastar com gás de cozinha, lenha inexistente (no local), ou aquecedor elétrico...

Jojô (Timmermann) concluindo a oficina junto ao reservatório de água quente do aquecedor

24 outubro, 2005

Santo Amaro da Imperatriz - Sítio Curupira

Sto. Amaro da Imperatriz é uma cidadezinha com o clima agradável da Serra Catarinense cercada de muito verde e ao mesmo tempo perto do mar, a apenas 35 km de Floripa, onde Gardel e Simone escolheram para realizar os seus (e os nossos) sonhos e vem trabalhando duro há 2 anos para criar o sítio Curupira, vivendo uma vida simples, integral e harmônica com o meio. Em um lugar de dificílimo acesso, eles compraram 10 hectares de terra, onde 5 são para preservação (zona 5) e os outros 5 para habitação, criação de galinhas em tratores vivos , cultivo de hortas e pomares .


Trator de galinhas e Simone

Em um ritmo de trabalho intenso e prazeroso, sem obrigações, mas com a vontade de construir e cuidar de suas terras , eles vivem como Nós um dia esperamos viver. Em contato absoluto com a terra, cultivando seus alimentos, no sossego da mata transformando cada cm do terreno e sendo transformado junto à ele. Além de todo trabalho com o sítio, eles mantêm uma paixão que já acontecia antes de se mudarem para o Curupira: os cogumelos. Recebemos pequenas aulas sobre cultivos de cogumelos , além de termos sido recebidos com um macarrão ao molho de Hirataki cultivado por eles. Delícia......
Ficamos apenas 1 dia por lá , conhecemos um pouco mais do terreno, trocamos sementes e idéias, plantamos frutíferas e firmamos dentro de nós aquilo que buscamos. Além de balançarmos com a serra catarinense, cada vez mais firme em nossos pensamentos...

22 outubro, 2005

São José do Cerrito - Boas Raízes na Terra

Durante o congresso e encontro da Permear conhecemos Pedro Marcos, Eluza e Helena, familia iluminada que vive em São José do Cerrito, e que vem construindo sua casa no sítio Raízes há dois anos, na propriedade da família Ortiz, da qual Pedro representa a terceira geração na terra. Além dessa nova residência, ampliada a partir de uma casa antiga com o uso de superadobe e fardo de palha, começam a ficar mais e mais visíveis os frutos e a evolução concreta dos últimos sete anos de trabalho permacultural na propriedade. Pastoreio rotativo integrado ao design, um lindo bosque de araucárias, uma extensa área com frutíferas variadas, um novo parreiral que vem sendo tocado com muito carinho e que está em seu segundo ano de produção, recuperação de solo degradado com adubação verde, completa sistematização de água incluindo o uso da água excedente em açudes para produção de peixes, de plantas aquáticas, iluminação refletiva para a casa e climatização local.
Visão lateral do açude principal com mudas na borda e plantas aquáticas recém implantadas ao fundo
Em 2003, eles promoveram em conjunto com a prefeitura municipal um curso de "zona 1", em parceria com o IPAB. Com a intenção de praticar com base na teoria formal oferecida num curso de PDC (Curso de Design em Permacultura), as oficinas práticas contaram com três enfoques principais: produção de alimentos (horta mandala, espiral de ervas, criação de animais e minhocário, compostagem), habitação (construção natural, fogão a lenha com serpentina, aquecedor solar de água) e segurança hídrica (construção de cisterna de ferrocimento, círculo de bananeiras, banheiro compostável seco e bacia de evapotranspiração).
Marcelo Venturi e o fermentador de pneus da bacia de evapotranspiração - Curso de Zona 1/2003
O local também recebe alunos de escolas da região e até de Florianópolis, além de grupos de agricultores, assentados e membros de secretarias de saúde, de habitação e de agricultura dos municípios vizinhos que vem admirar o trabalho realizado pela família. Tamanha relação com a prefeitura local e demais municípios é fruto do trabalho incansável de Pedro Marcos, que hoje atua também como secretário de planejamento, e de Eluza que ajuda a coordenar as ações da secretaria de educação e na APAE local, e obviamente de sua ética e exemplar dedicação em implementar o design e utilizar tecnologias apropriadas sempre que possível em suas espaços de trabalho (cisterna para coleta de água de chuva na APAE, arborização da cidade com árvores frutíferas, programa integrado de destinação de resíduos, tratamento local de esgoto, etc) .
Ao lado da casa fica o parreiral de onde saem as uvas para fazer o suco e o vinho que a familia Ortiz consome e que em alguns anos tambem venderá, sendo outra fonte de recursos. Como não poderia deixar de ser, Pedro Marcos recicla garrafas de vidro, esterilizando-as e usando-as para engarrafar os sucos e os vinhos, o que pretende continuar fazendo quando conseguir atingir um nível de produção comercial, e o tempo permitir.
Atrás da casa ficam várias frutiferas onde Helena e Kaylo fizeram a feira, enquanto nós fomos observar a nascente e beber de sua água pura dando uma volta rápida no lindíssimo bosque de araucárias.
Pedro Marcos e sua "outra paixão": as araucárias!

No domingo, dia da reunião familiar fomos recebidos por seus pais que nos proporcionaram carinho e banquetes que não tinham fim em cada refeição. D.Celia (mãe de Pedro), fez umas roscas de polvilho que não conseguimos parar de comer, e como todo bom conhecimento deve ser disseminado, aí vai a receita :
Receita da rosquinha de polvilho da D. Célia Ortiz

Ingredientes : 1 pct de polvilho azedo, 1copo de leite frio, 1 copo de um bom azeite bem quente, 1 colher de sopa de sal, 500 g de coalhada ou ricota, 5 a 6 ovos de galinhas felizes.

Kaylo & Helena e as galinhas felizes do Sítio Raízes

Modo de fazer : Colocar o polvilho em uma bacia grande e deixar descansar por 25 minutos, acrescentar o leite e mexer, esfarele a farinha, escalde com o azeite quente, acrescente a coalhada, os ovos e misture bem. Por último o sal sovando bem. A massa pronta dura até 1 semana na geladeira.

20 outubro, 2005

Congresso Brasileiro de Agroecologia

A apresentação da rede Permear foi um sucesso absoluto no Seminário de Agroecologia que aconteceu de 17 à 20 de outubro em Floripa. Num clima totalmente informal, e de sala abarrotada de gente, as cadeiras foram arrumadas em forma de espiral com a idéia de que a energia entre todos ali presentes girasse de dentro para fora e de fora para dentro, ajudando também a quebrar aquele clássico padrão de professor-aluno (todas cadeiras sentadas viradas para frente) - sim mestre! Para ilustrar a formação da rede 1 a 1 dos membros foram se apresentando e pegando um ponto do fio de um barbante que foi devagar correndo pela sala, tecendo uma teia gigante, inteira conectada e permeada, onde em cada ponto ou nó havia um permacultor ou um grupo de permacultores. Tecendo a rede literalmente!


(vídeo em baixa resolução - clique em "original size" no canto inferior direito)

Ao final da oficina/palestra, houve a intervenção de um guerreiro anônimo (para nós ao menos) que ajudou a dar novo ânimo com suas canções, cantigas e observações sobre a necessidade das Ações para o Novo Tempo. Baseando sua intervenção no Calendário da Paz, fez todos darem as mãos e cantarem ao reparar que o símbolo da Rede Permear exposto no visor era composto por 13 mãos, número simbólico para os seguidores do sincronário.

(vídeo em baixa resolução - clique em "original size" no canto inferior direito)

Pra nós os 3 dias de seminario foram ótimos, apesar de simplesmente não termos participado de qualquer outra oficina ou atividade, afinal, conforme opinião geral de quem estava por lá, o melhor do seminário foram mesmo os encontros e reencontros, e as conexões para as atividades que estão por vir... daí saíram contatos para visitas em projetos no RJ, construção de cisterna em ferrocimento em conjunto com o CETAP no RS, atividade da Feira Paraná Orgânico em Curitiba, oficina com os amigos da UFV em MG e quem sabe o quê mais? Ponto negativo do evento foi o baixo número de produtores (e muito mais doutores), o que acabou dificultando a troca dos saberes, e o ponto positivo a presença maciça dos estudantes e os relatos das atividades sendo realizadas em todos os cantos do Brasil... é isso aí moçada, mãos a obra!


Feliz reencontro com Sofia...

15 outubro, 2005

Permeando - Rede Permear de Permacultores


Voltamos correndo para Floripa, para a reunião da Rede Permear que aconteceu de 12 a 15 de outubro, chegando na casa do Jorge e da Suzana que nos esperavam junto com o velho amigo Tomé do Sítio Beira Serra, para ouvirem nossas últimas "peripécias" estrada afora.

Dia 13 de manhã finalmente chegamos a reunião, que mais se parecia com um encontro de velhos amigos: Jorge, Suzana, Marcelo Bueno e Cris, Skye, Marco Aurélio, Tomaz, Marcelo Venturi, Fábio, Sumara, Edla, Mariane, Itamar, Marcos Marques, Jorge André, Simone, Jonas e Verusca, Cláudio Sanchotene e nós, que fomos carinhosamente apelidados de "familia caramujo", bem apropriado levando em conta o volume de malas que carregávamos - nossa casa nas costas.
Skye começou apresentando seu lindo e consistente trabalho de permacultura com comunidades indígenas Guarani-Kaiowá, no sul do MS. Skye tem longa experiência vivendo e ensinando permacultura. Viveu e ocupou uma variedade de funções em Crystal Waters, uma das ecovilas com trabalho mais reconhecido na Austrália, e está envolvido ativamente com educação em permacultura por mais de 20 anos em países tão diversos como África do Sul, Alemanha, México, Japão e outros. Depois de sua apresentação, discutimos tópicos sobre os cursos promovidos pelos membros da rede, critérios básicos de compatibilização dos cursos no formato PDC, e outros, nivelando as informações para todos presentes. À noite a conversa seguiu com sopão e a apresentação do trabalho do Marcelo Bueno e da Cris em Ubatuba (SP), do IPEMA, que já vem trabalhando em conjunto com Skye, numa firme parceria de cursos realizados entre Ubatuba e Campo Grande, e projetos como o de agroflorestas com comunidades quilombolas na região de Ubatuba e com comunidades rurais no Cerrado Mato-grossense, uma bela lição de cooperação para a Rede.

No dia 14 as atividades seguiram com uma visita de campo ao sítio do casal Simone & Gardel, o Sítio Curupira, além de uma visita ao Yvy Porã, que acabou não acontecendo por conta da chuva forte que caia.

"Onde está Wally" no Curupira ;c))

A tarde a reunião continuou com a apresentação do trabalho dos recém-chegados Rosileli, e os queridos Shanti e Paulo da Grande Família Unindatribo, e com a nossa apresentação, quando nos tornamos membros da Rede PERMEAR de permacultores, uma rede com a qual nos identificamos muito, que nos trouxe muitos bons amigos e a esperança de ver o cuidado com as pessoas como base fundamental no futuro da permacultura no Brasil, o que até então não tinhamos visto.

Discutimos também a dinâmica que aconteceria no Seminário de Agroecologia no espaço que foi concedido para a Rede, e enquanto procurávamos pensar numa dinâmica que mostrasse aos presentes que de fato, a Permear é formada por pessoas, e que levam os princípios éticos da permacultura como base para tomada de suas ações, deixamos a brincadeira acontecer, e acabamos em boas risadas, trocamos abraços, e deixamos as propostas irem devagar sintonizando para uma proposta sólida e compartilhada por todos. Foi uma ótima oportunidade de desmistificar imagens e visões pré-concebidas, promovendo um encontro entre amigos com interesse em comum, o de levar adiante uma proposta de permacultura SEMPRE pautada na ética. Simples!!!

13 outubro, 2005

Cisterna em Praia Grande

O chamado para a construção de uma cisterna em ferrocimento junto a uma comunidade de famílias em Praia Grande foi a realização de um sonho que havia muito pensávamos em realizar. "Trabalhar onde realmente conta". Foi também a concretização dos planos feitos em meio a MUITA chuva na semana que passamos junto aos queridos Silvio e Bernadete, do planejamento de três oficinas que poderíamos eventualmente realizar em conjunto. Além da construção da cisterna, propusemos uma oficina de construção de tratamento de esgoto em bacia de evapotranspiração, e outra de fogão a lenha com serpentina para aquecimento de água ("um elemento cumprindo mais de uma função") e de aquecedor solar de baixo custo (para água quente no verão - "uma função importante cumprida por mais de um elemento"). Chegamos na cidade 2 dias antes da oficina para conferirmos ferramentas, materiais e o lugar onde seria construída a cisterna.

O objetivo desta nova cisterna era o de armazenar um volume de água potável suficiente para abastecer parte da população da comunidade (ou vila) local, de aproximadamente 84 famílias, 44 das quais seriam beneficiadas diretamente. Assim, no domingo fomos conferir o local da oficina, socializar, tomar um chimarrão e conversar com os moradores, e dar uma checada na nascente. Para nosso espanto, o ponto de captação de água potável da outra parte da comunidade (os 40 restantes) era um pequeno açude frequentemente contaminado pelos dejetos dos cavalos abrigados no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) local. Mais acima, na nascente que abastece o outro restante (também pertencente a mesma microbacia hidrográfica), ficamos quase estatelados de choque com o que víamos. A área imediatamente acima à nascente havia sido aberta ao gado e desmatada, e a área adjacente acabado de receber (segundo estimativa do Silvio uma semana antes) uma dose reforçada de Tordon, herbicida organoclorado extremamente tóxico produzido pela Dow Chemical. Entre seus efeitos mais conhecidos: mutagenese, cancer y otras cositas más. Tratamento de choque para começar o dia. Nossa surpresa foi ainda maior no dia seguinte, quando apenas uma pessoa da comunidade até então escolhida compareceu à palestra "Água na comunidade" onde explicamos com mais detalhes o processo construtivo da cisterna, sem perder a oportunidade de tocar em assuntos básicos como ciclo hidrológico, influência da urbanização e de atividades locais, superexploração (Caso Nestlé em São Lourenço) contaminação doméstica, e especialmente soluções práticas. Com a presença de cerca de 20 pessoas, e com a colaboração do Ju, Silvio e Bernadete, ouvimos alguns relatos sobre a situação local que comprovaram nossas afirmações.

Palestra na comunidade Fortaleza, Praia Grande/SC

Praia Grande possui 3.300 ha de lavouras de arroz irrigado em sistema convencional (monocultivo mecanizado com uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos), sendo necessários 8.000 m cubicos de água por hectare para manter um cultivo (desse tipo) do início ao fim da produção. Somente uma região com tanta água como Praia Grande poderia suportar um tranco desses, mas não por muito mais tempo. O pessoal local costuma dizer que as pedras do rio estão crescendo, pois não se dão conta de que é o nível do rio que está baixando. Além da superexploração da água, os arrozais são usuários em massa de veneno, contaminando a água, o solo e gerando uma grande quantidade de borrachudos (tipo de mosquito) na região. Seu solo permeável também permite a infiltração de água contaminada (pelos agrotóxicos) no lençol freático, e assim contamina todos os poços da região. Chega-se ao absurdo de ser comum saber de famílias que tem o rio passando a frente, e com enormes áreas alagadas de cultivo de arroz no fundo, não terem água potável para seu consumo.

Enfim, ao final da palestra foi decidido adiar o início das atividades de construção, enquanto checávamos a possibilidade de construir a cisterna na comunidade Três Irmãos, nova comunidade escolhida que apesar de ter sua nascente protegida, não dispunha de água suficiente para todas as 33 famílias.

No dia seguinte seguimos com a oficina conforme o planejado; a construção aconteceu em ritmo de mutirão, com direito a lanchinhos trazidos pelas vizinhas que também estavam trabalhando muito animadas e curiosas. Tivemos que peneirar a areia em peneiras manuais, pois não havia areia média peneirada para vender na região, o que se tornou mais uma atividade divertida, onde mulheres, homens e crianças trabalharam de baixo de sol e calor durante 4 dias, sorrindo e construíndo.

Segundo dia - mulheres preparando o topo da cisterna

No segundo dia também pudemos observar de perto a mudança da coloração do rio, de cristalino para um aspecto "embarrado", por causa da preparação da terra feita por tratores nas áreas de cultivo de arroz. Foi incrível notar como toda a topografia local foi modificada até o início dos anos 90, por um programa de governo que estimulava a formação desses campos, e a sistematização indiscriminada de água para o plantio que reduz drasticamente o volume de água do rio nas épocas mais secas. Sem quebra-ventos também estão completamente expostos aos fortes ventos que começam a atingir a região. E na volta para casa, com a mudança na direção do vento, ficamos surpresos com o forte cheiro do que aparentava ser "veneno de barata", e que o Silvio confirmou: era cheiro das aplicações de veneno em uma pequena área próxima ao lugar onde passávamos.

Durante o período de construção tivemos o prazer de contar com a colaboração de cerca de 30 pessoas que participaram em algum momento, com a presença marcante de Sr. Cid, Rinaldo, e da família do Sr. Maneco, proprietário do terreno onde foi construída a cisterna. Pessoas que tinham frequentemente problemas com falta d´água em suas casas, agora não vão ter mais que se preocupar tanto com isso. Depois de toda a chuva que caiu no sul do país nos últimos meses, a previsão é que a seca vai chegar em breve, e assim esperamos que nossas palavras tenham sido de fato ouvidas, e que naquele lugar maravilhoso, a água limpa e cristalina que lá jorra tão abundantemente seja reconhecida com seu devido valor.

Lateral da cisterna sendo preparada

Cisterna concluída - 18000 litros de água pura para a comunidade


A-HO!