27 agosto, 2005

Bon Giorno em São Domingos do Sul

De Santa Cruz do Sul, seguimos a Passo Fundo numa carona descaradamente arranjada pelo Aquiles, que arrumou uma visita ao irmão para poder nos levar até lá.

O combinado era chegar até a feira de produtores ecológicos, onde encontraríamos alguém da família Ferro, e de preferência iríamos pegar uma carona até São Domingos. Chegamos classicamente atrasados, mas ainda a tempo de dar uma conferida no espaço onde acontece a feira, e a tempo de cruzar com o Arzelindo, marido da Maristela, a qual havíamos conhecido no encontro da Rede Ecovida, em Praia Grande (SC). De lá descobrimos que não tinha carona, que os ônibus até São Domingos também não eram tão frequentes assim, e tampouco baratos, mas nada de desanimo com a família Aquiles & Gloria. Pita, o irmão do Aquiles, que sincronicamente é o coordenador do CETAP, nos levou para um almoço no restaurante da cooperativa dos produtores ecológicos, perfeito!

Já em São Domingos fomos recepcionados pelo querido amigo Arzelindo, e em casa por toda a família Ferro. Uma linda família de colonos de origem italiana que nos aguardava com um farto banquete de deixar boquiaberto qualquer urbanóide, ou ex-urbanóide como nós. Do queijo feito pela Nona, as ervas do quintal, a polenta e o vinho, tudo era produzido localmente, e oferecido generosamente.

Arzelindo e Maristela nos apresentaram seu método de secagem de ervas em um quarto magicamente perfumado por muitos aromas. A Jessica, ainda hoje sorri a toa com o travesseiro de ervas feito pela Maristela, que a deixou a vontade para enchê-la como quisesse e assim continuamos a noite regado a chimarrito (uma mistura de ervas para chimarrão) e muita conversa. Até que o chimarrito decidiu se vingar de nós; desacostumados com o hábito de tomar chimarrão a noite, só mais tarde fomos lembrar na pele que o "chimas" tem muito mais cafeína do que o próprio café, resultado: passamos a noite "fritando", loucos p/ dormir não conseguiamos sequer pregar os olhos.

Só no dia seguinte, depois de lutar p/ conseguir sair da cama, nos demos conta de outra coisa. Ao olhar na parede do quarto percebemos que na verdade tinhamos passado a noite no quarto do casal, e que eles haviam cedido o espaço enquanto iam dormir com as crianças no quarto ao lado. Nunca vamos nos esquecer disso...

Enfim, domingo cedo, dia importante para a comunidade local, afinal era dia de São Valentim, e a promessa era de uma grande festa. Tomamos café e fomos dar uma olhada na propriedade e nos cultivos da família, o que me levou a lembrar o quanto os citadinos não tem a menor idéia do quanto se trabalho numa propriedade rural para fazer alimentos limpoes chegarem a cidade. Dia a dia há sempre muito, muito o que fazer. Cuidar da casa, da terra, dos filhos, dos pais, acordar as 3AM para carregar o caminhão e seguir a feira.

A família Ferro é a única que cultiva de forma ecológica dentro de sua comunidade. Para a maioria dos que vivem ao redor, são encarados como loucos, afinal, "que perda de tempo cultivar com enxada e sem veneno". Herbicidas, fungicidas, e inseticidas hoje fazem parte de um passado distante que segundo eles não vai voltar, que assim seja. Eles estão investindo seus esforços agora na linhaça dourada, uma variedade de linhaça que segundo os especialistas é rica em nutrientes que ajudam no bom funcionamento do organismo, no controle do diabetes, na diminuição do colesterol e em regimes de emagrecimento (http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=linha%C3%A7a+dourada&meta). A dedicação é tão grande que durante o último cultivo, ajoelhavam-se na terra e removiam o azevém, que insiste em crescer junto à ela, pé por pé, em um hectare de terra. Doeu o joelho só de pensar. A linhaça é no entanto, só um entre tantos outros cultivos da família, que como empreendedores e líderes comunitários que são, vem somando esforços junto a comunidade na criação de uma cooperativa de crédito solidário, e se prepara, também para a conclusão de uma agroindústria local, que terá como carro-chefe, inicialmente, a produção de óleos essenciais.

De volta ao assunto festa, as atividades começaram com uma missa na capela local, onde todos assistiam espremidos esperando a benção do padre, e a gurizada pelos pãezinhos de São Roque, benzidos e distribuídos ao final. Ao final da missa, falatório em bom e alto italiano, fartura de comida e de vinho, tudo produzido localmente, e espetos e mais espetos de carne. No galpão, onde cerca de 400 pessoas sentavam confortáveis em umas 20 mesas de 20 pessoas cada, dois enormes espetos de costela fincados na mesa nos lembravam que estávamos em terras gaúchas, e que lembrança! Ao almoço se seguiu uma animada festa com direito a música ao vivo, regada a mais vinho e cerveja e bastante empolgação, e que deve ter seguido até tarde, mas que nós não pudemos ficar já que chegara a hora do nosso ônibus de volta a Porto, e de lá a Santa Cruz.

Seguimos viagem emocionados com tamanho acolhimento, dedicação, esforço e com todo o amor e respeito entre todos, com vontade mesmo de ter ficado mais e colaborado com nossa mão de obra na lida diária da propriedade, talvez com uma cisterna de ferrocimento para captação de água da chuva do galpão da agroindústria, com um projeto bioconstruído para uma moradia de visitantes e voluntários, e mais do que tudo, para ter o prazer de conviver mais alguns dias com pessoas tão especiais...

25 agosto, 2005

Primeira parada, Ecovila Karaguatá

Saimos da super fria Bagé em direção a Santa Cruz, mais propriamente à Linha Ficht, onde vivem os lindos amigos da Ecovila Karaguatá. Há 3 anos estruturam uma proposta de convivência e crescimento comum, guiados pela biodança, e por suas incríveis experiencias de vida.
Kaylo dizia que queria ficar lá para sempre, pois tinha os amigos Gabriel , Ian, Leo, e a princesa Janaina, e suas respectivas mães maravilhosas, que faziam daquele colorido lugar uma ambiente delicioso, na dose certa de alegria e carinho.
Quando chegamos plantamos frutíferas, e experimentamos a tipa-guaçu, uma torta guarani a base de milho verde, que a essa altura já virou base da nosssa alimentação - muito boa!

Nossa expectativa era na verdade de ficar por só uns dois dias, mas de coração conquistado, acabamos achando genial a proposta que nos fizeram de fazermos uma oficina de construção em pau-a-pique, de uma piscina em ferrocimento (para as crianças e para o armazenamento de água da chuva) e de sabão e xampu biodegradáveis, cuja oficina seria oferecida pela Ju (Faber) e pela Jessica. E com o passar do tempo, vinha a chuva e o frio que só permitiam que fizessemos os primeiros testes com o barro local e demos uma adaptada no plano original, que a essa altura era o de visitar Arzelindo e Maristela Ferro, um casal de agricultores ecológicos que vive em sua comunidade de origem italiana em São Domingos, norte do RS, assim como o amigo Sérgio sua companheira e Raniera, que não por acaso assessora a família através do CETAP.

18 agosto, 2005

Na passada...

Querid@s amig@s,

Acredito hoje, mais do que nunca, que para realizar um sonho é preciso dedicar-se com toda força a ele. É preciso ter a confiança e a certeza no coração de que tudo é possível, que todos os obstáculos são passageiros, e de que através de todas as experiências, boas ou ruins, podemos tirar boas lições para o futuro, estando assim mais preparados para o que há por vir. Reconheço assim, depois dessa nossa breve temporada de 19 meses passada com os irmãos do IPEP, aonde chegamos através de visões e munidos de nossas mais nobres intenções, e onde tivemos o prazer de desfrutar de momentos únicos em nossas vidas, frutos do nosso ímpeto de reconexão absoluta à ética, ao respeito, ao amor, aos sentimentos de comunhão e de unidade, que é chegada a hora de uma nova mudança. Hora de uma renovação nas nossas crenças, hora de retomar a caminhada com ainda mais ímpeto, ainda mais firmes na certeza das palavras da Gandhi: “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”.

À todos vocês, que acompanharam de uma forma ou de outra nossa trajetória na pitoresca capital da Campanha Gaúcha (Bagé), nosso muito obrigado, e até breve. A caminhada é longa e, como diriam nossos irmãos bageenses, estamos “arecém” começando...

Saíremos de Bagé no próximo dia 20, com a intenção de visitar tantos projetos e iniciativas relacionadas a permacultura (*) quanto possível, numa longa jornada até Manaus, chegando lá em Fevereiro de 2006. E mais do que visitar, queremos trocar e compartilhar o conhecimento e as informações sobre permacultura reunidas e praticadas durante nossa temporada em Bagé, colaborando para o estabelecimento de sistemas permaculturais funcionais, privilegiando nossa atuação em ações de cunho social ou comunitário. Estaremos também colaborando na criação de um guia de projetos WWOOF (do inglês Willing Workers On Organic Farms – trabalhadores voluntários em fazendas orgânicas) que estará disponível no site Organic Volunteers (www.growfood.org), dos amigos Ethan Schaeffer e Sarita Role que colaboraram diretamente para a realização desta viagem. Cadastraremos projetos privados, governamentais, ou não-governamentais que tenham interesse em receber voluntários de toda a América (Latina e do Norte) para aprendizado em troca de alimentação e estadia, assim como voluntários que queiram fazer parte dessa rede.

Sucesso em todas nossas bem-aventuradas empreitadas, sempre!

Um forte abraço à todos, de coração a coração,


Guilherme, Jessica & Kaylo

(*) permacultura – www.permacultura.org.br


15 agosto, 2005

Aceitar a morte para ser livre

Aceitar a morte para ser livre
Leonardo Boff, em estória descrita pelos Karajá, da Ilha do Bananal

No comeco do mundo, quando foram criados pelo Ser supremo Kananciué, os Karajá eram imortais. Viviam como peixes - aruanãs - e, desenvoltos, circulavam por todo tipo de rios e águas. Não conheciam o sol e a lua, nem plantas e animais. Mas viviam felizes, pois gozavam de perene vitalidade.
Estavam, entretanto, sob uma tentacão permanente: entrar ou não entrar pelo buraco luminoso que havia no fundo do rio. O Criador lhes havia proibido terminantemente que fizessem isto, sob pena de perderem a imortalidade. Passeavam ao redor do buraco, admiravam a luz que dele saía, ressaltando ainda mais as cores de suas escamas. Tentavam espiar para dentro, mas a luminosidade impedia qualquer visão. Apesar disso, obedeciam fielmente.
Certo dia, um Karajá afoito violou o tabu da interdicão. Meteu-se pelo buraco luminoso adentro e foi dar nas praias alvíssimas do rio Araguaia. Viu uma paisagem deslumbrante. Encontrou um mundo totalmente diverso do seu. Havia um céu de um azul muito profundo, com um sol irradiante, iluminando todas as coisas e aquecendo agradavelmente a atmosfera. Aves coloridas, com seus gorjeios, davam musicalidade ao ar. Animais dos mais diversos tamanhos e cores circulavam pacificamente um ao lado do outro pelas campinas. Borboletas ziguezagueavam por sobre flores perfumadas e florestas exuberantes eram entremeadas por plantas carregadas de frutos.
Deslumbrado, o índio Karajá ficou apreciando aquele paraíso terrestre até o entardecer. Quis retornar, mas foi tomado por um outro cenário fascinante. Por detrás da verde mata nascia uma lua de prata, clareando o perfil das montanhas ao longe. No céu, uma miríade de estrelas o deixou boquiaberto, a ponto de se perguntar:
- O que se esconde atrás daquelas casinhas todas iluminadas? Quem lhes acende a luz, para brilharem com tanta forca?
E assim, embevecido, passou a noite até que comecou novamente a clarear e desaparecer a lua. O sol, que parecia ter morrido na noite anterior, ressurgia, glorioso, no horizonte distante.
Lembrando-se de seus irmãos peixes, regressou com os olhos cheios de beleza, passando rápido pelo buraco luminoso. Foi falar aos seus irmãos e irmãs, dizendo-lhes:
- Meus parentes, passei pelo buraco luminoso e descobri um mundo que vocês sequer podem imaginar. Contemplei com alegria no coracão o sol, a lua e as estrelas. Vislumbrei com os olhos esbugalhados campinas floridas e infindáveis borboletas. Apreciei animais de todos os tamanhos em florestas verdes e azuis. As praias são alvíssimas e de areias finas. Temos que falar com nosso Criador, Kananciué, para nos permitir morar naquele mundo.
Mesmo sem entender aqueles nomes todos, os parente ficaram tão curioso que já queriam imitar a coragem do irmão Karajá e, coletivamente, desobedecer, passando pelo buraco proibido. Mas os anciãos sabiamente observaram:
- Irmãos e irmãs, temos que respeitar nosso Criador, pois nos quer bem e nos fez imortais como ele. Vamos conversar com ele e pedir-lhe as devidas permissões.
Todos, sem nenhuma excecão, concordaram. Foram falar com seu Criador, Kananciué. Expuseram as boas razões de seu pedido. O Criador, depois de ouví-los e, com certa tristeza na voz por causa da desobediência do afoito Karajá, lhes respondeu:
- Entendo que vocês queiram passar pelo buraco luminoso que os levará a mundo de beleza, de cores variegadas, de diversidade de plantas, de flores, de frutos e de animais. Contemplarão, sim, a majestade do céu estrelado, o esplendor do sol e a suavidade da lua. Divertir-se-ão nas águas claras do Araguaia e rolarão de alegria em suas praias alvíssimas. Mas eis que vos revelo o que vocês não sabem e não veêm. Toda essa beleza é efêmera como a borboleta das águas, conhecida de vocês, que nasce hoje e desaparece amanhã. Os seres de lá não tem a imortalidade como vocês. Todos nascem, crescem, maduram, envelhecem e morrem. Todos são mortais. Todos caminham para a morte...Irresistivelmente para a morte. Vocês querem isso para vocês? Cabe a vocês decidirem.
Houve um silêncio aterrador. Todos se entreolhavam. Todos se voltaram ao Karajá que descobrira o mundo encantado, embora mortal. E tomados como que de fascínio pela beleza daquele mundo, confirmada pelo Criador Kananciué em sua fala, responderam:
- Sim, Pai. Sim, queremos conhecer aquele mundo. Queremos morar naquele paraíso dos mortais.
O Criador ainda lhes falou pela última vez:
- Aceito a decisão de vocês porque aprecio acima de tudo a liberdade. Mas saibam que de hoje em diante serão mortais. Continuarãolivres, não deixem jamais que lhes roubem a liberdade, mas deverão morrer como todos os seres daquele mundo radiante. Lembremse que trocaram o dom supremo da imortalidade pelo dom precioso da liberdade. A história é de vocês.
E todos os Karajá passaram entusiasmados pelo buraco luminoso do fundo do rio. Chegaram ao mundo dos mortais, da beleza efêmera e das alegrias finitas.
Vivem ainda hoje naquele paraíso, às margens do Araguaia. Tiveram a inaudita coragem de preferirem a mortalidade, para que pudessem nascer integralmente como seres de liberdade, o que continuam sendo até os dias de hoje.