21 setembro, 2005

novas permaculturas em SC

A partir desse ponto da viagem não sabiamos muito o que esperar, já que os projetos e as pessoas que iríamos visitar só nos eram conhecidos através de nomes e endereços de email, e a (ansiedade positiva) era grande. Chegamos em Criciúma após uma rápida viagem com o Ed-móvel, a Kombi do amigo Ed de Praia Grande, que era dirigida pelo Ju que seguia por sua vez com a trupe da Expedição Ciclo Brasil (Lu e Cris) a caminho de Garopaba para atividades de construção de uma horta escolar em parceria com o Instituto Baleia Franca. Nossa primeira parada foi o Oikos, um espaço para eventos e cursos onde pessoas se encontram para acrescentar algo de bom em suas vidas e nas de quem as cerca. Comandado pela família Mendes, o Oikos fica num terreno onde havia extração de argila para cerâmica e onde hoje o solo do terreno (que era o subsolo) é lentamente recuperado.

Centro de vivências no Oikos

Uma horta foi feita, árvores plantadas, e um bom número de galinhas abastece a família e os amigos em sua necessidade por ovos saudáveis. Aterrissamos em uma reunião de kensan que estava por começar, e sem ter a mínima idéia do que se tratava decidimos participar, e aprendemos muito. As reuniões de kensan são uma forma de as pessoas se reunirem e analisarem um assunto da forma mais profunda possível. Uma visão do Yamaguishi para fazer com que as pessoas exponham todas as formas de análise sobre os pontos de vista de todos aqueles que participam do círculo da reunião. O assunto da noite era o POR QUÊ de se viver em comunidade, uma vez que boa parte deles tem a firma intenção de viver dessa forma em breve, e acabamos sendo surpresos com uma verdadeira aula de tolerância e amizade.
No dia seguinte, João Marino (poeta de mão cheia, co-fundador do Sete Lombas) nos buscou e seguimos ao Sítio. No caminho paramos para visitar a obra do escritório do Sr. Jair Cabral, um advogado um tanto fora do padrão. Seu objetivo é o de ser um mediador, e isso reflete no projeto de sua sala onde não haverão mesas, apenas cadeiras posicionadas em círculo, para que as partes interessadas possam sempre chegar a um acordo apenas conversando, sem precisar recorrer a disputas judiciais. A sala de espera fica ao ar livre, o escritório tem telhado vivo, paredes de tijolos de solo-cimento, e uma caixa de abelhas mirim (nativas sem ferrão) acoplada no pilar da entrada principal. Uma construção de Direito!

Vista lateral do escritório

Kaylo sobre o telhado vivo e caixa de abelhas mirins

Ao chegarmos no sítio, podemos entender seu nome. No terreno comprado pela família Vieira existem Sete Lombas (ou Cerros) ao longo dos seus 22 hectares. Junto ao João Marino e Marcos Marques, visitamos a agrofloresta, o bambuzal, a mata, com Itamar nos guiando em uma expedição em que nos mostrou várias espécies nativas, com variedades muito interessantes por conta de suas funções fundamentais para o equilíbrio do ecossistema local, ou ainda por suas funções medicinais. A Cotieira, por exemplo só germina naturalmente se seus frutos são consumidos e excretados pela cotia, que acaba plantando um fruto para cada outro que come. Outra muito interessante é a Sangue-de-Drago, que cresce em profusão próximo as áreas alagadas da região, e que é um poderoso e conhecido coagulante sanguíneo nativo. Segundo Itamar, se o tronco ou caule da planta é cortado, uma seiva de cor de sangue escorre rapidamente, e da mesma forma, rapidamente seca e "cicatriza", deixando apenas marcas bem brandas no local do corte. Aprendizado e ação nativa por observação, mágico! Nos mostrou também as áreas onde serão as futuras chinampas e as casas.
Cozinhamos no fogão a lenha e enquanto conversávamos aguardando o fim da chuva que insistia em cair, tivemos a oportunidade de observar o vizinho passando com o carro de boi repleto de árvores nativas recém-cortadas e que seriam transformadas em carvão - mais fumaça e degradação na Capital Nacional do Carvão.
De volta ao Oikos, Bel, Lucas e Vitor nos brindaram com todo o amor e o humor que precisávamos para recarregar as energias e seguir firme. Na manhã do dia seguinte, ao invés de ir para Garopaba, onde iríamos conhecer a propriedade de Glaico, conhecido permacultor e produtor agroecológico, decidimos mudar o rumo e seguir a Floripa, firmando os passos para o encontro com os novos amigos da Rede Permear, e no preparativo para o Seminário Brasileiro de Agroecologia que acontece por aqui em meados de Outubro.

19 setembro, 2005

Reencontro em Praia Grande (SC)

Praia Grande é uma cidade de visual incrível encrustada na base da Serra dos Aparados, onde fica o famoso Itaimbezinho, um entre os tantos canyons enormes que habitam o pano de fundo no dia-a-dia dos Praia-Grandenses. Praia Grande está em SC, e faz divisa com a cidade de Mampituba, no RS, através do rio X (que não me lembro o nome ;c), um rio de águas cristalina que chega na cidade razoavelmente limpo e que segue bastante contaminado com os dejetos de algumas propriedades, e principalmente, com os resíduos dos agrotóxicos usados na cultura do arroz, principal cultivo local e que toma inacreditáveis 3300 hectares da cidade. Do nível da cidade, que dista apenas 60Km da cidade litorânea de Torres (RS), até o topo da serra são 2000m de altura, é um cenário de cair o queixo, literalmente. Desde que conhecemos esse lugar ficamos com vontade de voltar, não só por ser lindo e ter uma energia encantadora, mas pela forma como as pessoas são receptivas.

Visual de uma cachoeira local

Chegamos na casa do Silvio e Bernadete, um casal genial que havíamos conhecido no Encontro Ampliado da Rede Ecovida e que nos acolheu novamente com sorrisos, polvilho saindo do forno e todo carinho. Jace aguardava com um chimarrão prontinho, e a Miriam com sua serenidade a flor da pele. O Cris (agora também ex-IPEP), para nossa alegria também estava por lá há alguns dias, trabalhando com o Silvio em projetos da comunidade, e aguardando a chegada do casal CicloBrasil Ju & Lu, que saíram do IPEP, no pedal, pouco antes de nós - uma chegada muito aguardada. Ê saudades!!! Festejamos muito esse reencontro cheios de lembranças, trocas, alegrias e muitos planos. Foi lindo. Muitas boas vibrações rolaram nestes dias que estivemos juntos novamente; fisicamente, pois nossos corações sempre estiveram unidos. Kaylo e Gabriel também curtiram esse reencontro e passaram os dias juntos brincando, brigando e aprendendo.

Silvio e Bernadete são um casal sensacional, pessoas muito especiais que colocam em prática no seu dia-a-dia tudo que tentam passar para as comunidades e agricultores com quem trabalham através do núcleo local da EPAGRI. Com toda a determinação e fé começam também a implementar um "design permacultural" em sua bela propriedade, situada próximo ao canyon Malacara, mostrando aos agricultores da região, que fazer ecologia em suas propriedades, na prática, é a melhor forma de viver bem e com saúde.

No terreno da casa deles, fizeram uma construção suspensa onde hospedam os "clandestinos"que passam por lá e que também serve de abrigo para os carros; e é claro com um banheiro seco para ninguém botar defeito. Abaixo do banheiro fica o chuveiro e pensamos em fazer um aquecedor solar para o chuveiro, e fizemos. Quer dizer, o Gui e o Silvio porque a jess escorregou na horta (estava chovendo todos os dias) e bateu com o olho esquerdo numa estaca que estava firmando o brocolis, e ficou fantasiada de pirata alguns dias. As galinhas também fazem seu trabalho em tratores móveis sempre ao redor do açude, que fica logo abaixo da casa, rodeado também por árvores frutíferas. Mais a distância, ficam o pomar, uma pequena área para plantio de mandioca próximo de onde está sendo construída mais uma habitação "clandestina", dessa vez em pau-a-pique e com telhado ainda a definir.

Na cidade de Mampituba, tivemos também a oportunidade de participar de um encontro sobre segurança alimentar promovido pelo Centro Ecológico e patrocinado pelo programa Petrobrás/Fome Zero. À parte de alguns comentários de um médico palestrante local, o evento foi muito interessante, e o fato de envolverem as crianças e donas de casa facilita a mudança dos hábitos alimentares da família a fim de promover a produção e o consumo local de produtos ecológicos. A palestra mais curta, mais bonita e mais especial ficou por conta de Rafinha, uma senhora de Maquiné que trabalha há muitos anos com plantas medicinais. Ponto para o Centro!

Na noite anterior a nossa despedida ficou a surpresa do reencontro com o velho parceiro "Bonitão", nosso amigo Ronaldo que vive no IPEP desde o final de Junho e que conheci no curso de Ecoconstrução em Jan/2004 também em Bagé. E seguimos adiante...

10 setembro, 2005

Impacto das hidrelétricas no RS

Talvez a melhor surpresa da nossa passada em PoA tenha sido o II Fórum sobre o impacto das hidrelétricas na bacia do Rio Uruguai, um evento que rolou do dia 08 a 10 de Setembro no prédio do Direito/UFRGS e que contou com o apoio do NAT-Brasil (Núcleo Amigos da Terra Brasil), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), InGa (Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais), e que teve a participação do pessoal da APREMAVI (Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí), um dos principais articuladores na batalha judicial que tentou impedir o alagamento de um dos últimos remanescentes de floresta primária de araucária no emblemático caso da UHE Barra Grande. (continuo na próxima...)

Alegres amigos em Porto Alegre

Cada vez mais nos tem sido impactante as chegadas nas capitais e grandes cidades urbanizadas como Porto Alegre, que por mais Alegre (com A maiúsculo) que seja, ainda deixa sua forte impressão. O trânsito pesado, as contrastantes diferenças sociais (fáceis de notar ao sair da rodoviária), e o ritmo de vida alucinado nos deixam a certeza de que esse não é nosso lugar, aliás, por vezes nos perguntamos, é de alguém afinal?

Apesar de termos pensado nessa passada em Porto só como uma "passada" realmente, acabamos chegando no pré-feriado de 07/Set, e daí claro acabamos esticando um pouco mais nossa estadia visitando os tantos amigos que fizemos nessa temporada gaúcha. A primeira boa surpresa foi conhecer de perto o trabalho desses tantos amigos. O velho parceiro e amigo Marcão, da livraria Via Sapiens, que tem a livraria com a melhor seleção de títulos em ecologia, permacultura, arquitetura, filosofia e afins, sem contar que é o ponto de encontro da galera p/ tomar um belo amargoso na cidade baixa, e também a certeza do encontro com a Léia e a Sophia, princesa da Sarmento Leite (rsrsrs). Conhecemos BEM de perto também o trabalho da Aninha (Adams), que estava no auge da loucura acabando um livro sobre a Avenida Rio Branco no RJ. A Ana e FAMÍLIA ADAMS foi também nossa anfitriã na cidade, talvez loucura ainda maior do que fazer um livro... Outras boas surpresas foram o almoço no restô São Jorge e o Dragão, que sincronicamente é de parceiros da Rede Ahimsa e Cooperativa Aldeia Gaia, o super trabalho do irmão e bioarquiteto Chileno, e também da gurizada maleva (Gu, Guile e Lu Tizziani) da H2Bio e suas artes em bambu, genial! Apesar de não termos conseguido cruzar todos, ainda deu p/ rever, ainda que de relance, os amigos do DAFA UFRGS e a Gianine, amiga arquiteta que está coordenando alguns trabalhos junto a assentamentos do MST no sul do estado, e em especial no assentamento dos irmãos de Herval, com quem tivemos o enorme prazer de conviver por uns dias, eu e Bira da Pampa, um bárbaro!

07 setembro, 2005

Tarde no Khadro Ling, Três Coroas/RS

7 de setembro, aproveitando que Porto estava totalmente parada, demos uma esticada até Três Coroas para visitar o Khadro Ling, um templo budista da linhagem Nyingma, uma das 4 principais do budismo tibetano. Apesar de meio fora de mão para o viajante de mochila, vale a pena uma visita com um pouco mais de tempo para admirar os afrescos do templo principal, feito por tibetanos, nepaleses e indianos a convite do Rinpoche e da Sangha local. Recomendo a visita!


Templo budista em Três Coroas/RS - Set/2005 

05 setembro, 2005

Pé no barro e mão na massa

Na volta de São Domingos seguimos o trabalho para a oficina. Examinamos a terra local em várias pontos diferentes do terreno e vimos uma boa diversidade em poucos metros de distancia. Construimos uma parede com os bambus entrelaçados em uma tecnica de origem mexicana, o bahareque, que é basicamente uma outra versão do nosso clássico pau-a-pique. A mistura da massa ficou ótima, de muito boa aderencia e bem homogenea e como todo trabalho com o barro, foi muito divertido. Sobre a piscina, bem, essa ficou para nossa próxima visita, já que a chuva não deu trégua e seguimos nosso trabalho embaixo das lonas.


Quem já pisou no barro sabe!



Auri, Aquiles e Jorge com o pé na massa
Barro no bahareque!
Nossa despedida foi na base da biodança, fechamento com chave de ouro em uma experiencia maravilhosa, mágica, o tipo de momento que levamos no coração por toda vida. Com muita gratidão nos despedimos rumo a Porto Alegre, na passada para a Praia Grande (SC)