13 outubro, 2005

Cisterna em Praia Grande

O chamado para a construção de uma cisterna em ferrocimento junto a uma comunidade de famílias em Praia Grande foi a realização de um sonho que havia muito pensávamos em realizar. "Trabalhar onde realmente conta". Foi também a concretização dos planos feitos em meio a MUITA chuva na semana que passamos junto aos queridos Silvio e Bernadete, do planejamento de três oficinas que poderíamos eventualmente realizar em conjunto. Além da construção da cisterna, propusemos uma oficina de construção de tratamento de esgoto em bacia de evapotranspiração, e outra de fogão a lenha com serpentina para aquecimento de água ("um elemento cumprindo mais de uma função") e de aquecedor solar de baixo custo (para água quente no verão - "uma função importante cumprida por mais de um elemento"). Chegamos na cidade 2 dias antes da oficina para conferirmos ferramentas, materiais e o lugar onde seria construída a cisterna.

O objetivo desta nova cisterna era o de armazenar um volume de água potável suficiente para abastecer parte da população da comunidade (ou vila) local, de aproximadamente 84 famílias, 44 das quais seriam beneficiadas diretamente. Assim, no domingo fomos conferir o local da oficina, socializar, tomar um chimarrão e conversar com os moradores, e dar uma checada na nascente. Para nosso espanto, o ponto de captação de água potável da outra parte da comunidade (os 40 restantes) era um pequeno açude frequentemente contaminado pelos dejetos dos cavalos abrigados no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) local. Mais acima, na nascente que abastece o outro restante (também pertencente a mesma microbacia hidrográfica), ficamos quase estatelados de choque com o que víamos. A área imediatamente acima à nascente havia sido aberta ao gado e desmatada, e a área adjacente acabado de receber (segundo estimativa do Silvio uma semana antes) uma dose reforçada de Tordon, herbicida organoclorado extremamente tóxico produzido pela Dow Chemical. Entre seus efeitos mais conhecidos: mutagenese, cancer y otras cositas más. Tratamento de choque para começar o dia. Nossa surpresa foi ainda maior no dia seguinte, quando apenas uma pessoa da comunidade até então escolhida compareceu à palestra "Água na comunidade" onde explicamos com mais detalhes o processo construtivo da cisterna, sem perder a oportunidade de tocar em assuntos básicos como ciclo hidrológico, influência da urbanização e de atividades locais, superexploração (Caso Nestlé em São Lourenço) contaminação doméstica, e especialmente soluções práticas. Com a presença de cerca de 20 pessoas, e com a colaboração do Ju, Silvio e Bernadete, ouvimos alguns relatos sobre a situação local que comprovaram nossas afirmações.

Palestra na comunidade Fortaleza, Praia Grande/SC

Praia Grande possui 3.300 ha de lavouras de arroz irrigado em sistema convencional (monocultivo mecanizado com uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos), sendo necessários 8.000 m cubicos de água por hectare para manter um cultivo (desse tipo) do início ao fim da produção. Somente uma região com tanta água como Praia Grande poderia suportar um tranco desses, mas não por muito mais tempo. O pessoal local costuma dizer que as pedras do rio estão crescendo, pois não se dão conta de que é o nível do rio que está baixando. Além da superexploração da água, os arrozais são usuários em massa de veneno, contaminando a água, o solo e gerando uma grande quantidade de borrachudos (tipo de mosquito) na região. Seu solo permeável também permite a infiltração de água contaminada (pelos agrotóxicos) no lençol freático, e assim contamina todos os poços da região. Chega-se ao absurdo de ser comum saber de famílias que tem o rio passando a frente, e com enormes áreas alagadas de cultivo de arroz no fundo, não terem água potável para seu consumo.

Enfim, ao final da palestra foi decidido adiar o início das atividades de construção, enquanto checávamos a possibilidade de construir a cisterna na comunidade Três Irmãos, nova comunidade escolhida que apesar de ter sua nascente protegida, não dispunha de água suficiente para todas as 33 famílias.

No dia seguinte seguimos com a oficina conforme o planejado; a construção aconteceu em ritmo de mutirão, com direito a lanchinhos trazidos pelas vizinhas que também estavam trabalhando muito animadas e curiosas. Tivemos que peneirar a areia em peneiras manuais, pois não havia areia média peneirada para vender na região, o que se tornou mais uma atividade divertida, onde mulheres, homens e crianças trabalharam de baixo de sol e calor durante 4 dias, sorrindo e construíndo.

Segundo dia - mulheres preparando o topo da cisterna

No segundo dia também pudemos observar de perto a mudança da coloração do rio, de cristalino para um aspecto "embarrado", por causa da preparação da terra feita por tratores nas áreas de cultivo de arroz. Foi incrível notar como toda a topografia local foi modificada até o início dos anos 90, por um programa de governo que estimulava a formação desses campos, e a sistematização indiscriminada de água para o plantio que reduz drasticamente o volume de água do rio nas épocas mais secas. Sem quebra-ventos também estão completamente expostos aos fortes ventos que começam a atingir a região. E na volta para casa, com a mudança na direção do vento, ficamos surpresos com o forte cheiro do que aparentava ser "veneno de barata", e que o Silvio confirmou: era cheiro das aplicações de veneno em uma pequena área próxima ao lugar onde passávamos.

Durante o período de construção tivemos o prazer de contar com a colaboração de cerca de 30 pessoas que participaram em algum momento, com a presença marcante de Sr. Cid, Rinaldo, e da família do Sr. Maneco, proprietário do terreno onde foi construída a cisterna. Pessoas que tinham frequentemente problemas com falta d´água em suas casas, agora não vão ter mais que se preocupar tanto com isso. Depois de toda a chuva que caiu no sul do país nos últimos meses, a previsão é que a seca vai chegar em breve, e assim esperamos que nossas palavras tenham sido de fato ouvidas, e que naquele lugar maravilhoso, a água limpa e cristalina que lá jorra tão abundantemente seja reconhecida com seu devido valor.

Lateral da cisterna sendo preparada

Cisterna concluída - 18000 litros de água pura para a comunidade


A-HO!

2 Comments:

At 10:39 AM, Anonymous Anônimo said...

gostaria de saber como fazer uma cisterna tambem.
voces podem me passar as referencias e como montar uma?
desejo colocar uma cisterna num albergue.
grato
werner
sosterravida@hotmail.com

 
At 7:27 PM, Blogger pmmprado said...

oi, estamos montando uma comunidade aqui em roraima amazonia brasil.
Gostaria muito muito de ajuda na divulgação.

temos ideais de ser pequenos e propagar a permacultura aqui.

grata !
pmmprado@bol.com.br

Janeiro de 2010.
Estamos começando o ano e com este novo ano uma nova proposta de vida.
Estamos anunciando neste tópico uma proposta, busca de apoio e voluntariado que queira se juntar a nós aqui em Boa Vista Roraima Brasil para viver juntos a aventura da condição humana.
Temos um terreno localizado próximo à capital da cidade de Boa Vista, 30 kilômetros da cidade grande, portanto com todas as alternativas e flexibilidade possível para os que se interessarem em participar da formação de uma nova comunidade.
A idéia é formar um grupo com ......ecologia apicultura taças tibetanos sons de cura.
Isso é somente uma pequena lista de áreas de interesse, serão acrescentadas todas e quaisquer outras que não estiverem em conflito direto com o interesse maior em viver melhor.
Precisaremos claro idéias que gerem cursos ou produtos para colocar a venda, apesar de essa não ser a finalidade final e absoluta fica como necessidade pessoal de cada membro. Assim como a necessidade de com o tempo cada família decidir livremente até qual profundidade será seu envolvimento e aquisição dentro da esfera material tão questionado pelas pessoas.
Tem muitas terras ao entorno não usadas e precisaremos do maior numero possível de aquisições das áreas vizinhas no sentido de aumentar a área do projeto, para aqueles que puderem e quiserem comprar terreno barato aqui, teremos o maior prazer em ajudar.
A perspectiva de retorno e aplicabilidade social para minorias será visto como muito nobre, salvar o planeta é um trabalho de cada um de nos a partir de pequenas coisas e contribuições.
Na pratica enfim, isso tudo foi pra dizer a proposta e esperar perguntas de possíveis futuros participantes. Que venham pessoas sem ambição de construir coisas grandes mas com vontade de mudar pequenas coisas em si mesmos.
Namaste!
Email: pmmprado@bol.com.br

 

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